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A defesa da intimidade


Edgard Leite Ferreira Neto


Pode parecer surpreendente que temas íntimos tornem-se de debate público, como se as decisões privadas devessem ser tratadas por todos, a partir da vontade geral, e não, principalmente, à luz de entendimentos reservados. E soa ainda mais extraordinário que tais assuntos sejam politizados e entendidos como dotados de um conteúdo a ser discutido a partir de proposições coletivamente decididas. Mas assim funciona o nosso mundo.


Talvez, neste tempo, a dissolução crescente das famílias esteja tornando o privado carente de um espaço adequado para se-lo, e acabe por ser exteriorizado para qualquer um. As mídias sociais ajudariam nisso. Pode ser que, de forma simultânea, projetos políticos totalitários pretendam dessa forma dissolver aquilo que Marx chamou de “capricho pessoal”, isto é, o universo individual que considerou como a fonte do egoísmo (in A Questão Judaica). E, para tanto, fazem as pessoas assumir suas intimidades de forma pública - desqualificando a ideia de que existe alguma coisa que seja apenas minha.


De qualquer maneira, essa exposição e politização de assuntos íntimos, com a justificativa de que são, por exemplo, temas de “saúde pública”, ou ligados a críticáveis “relações patriarcais” pretende expor aquele mundo interior a partir do qual o ser humano encontra razões próprias, espirituais, éticas e morais, para tomar tal ou qual decisão. A exposição pública busca atrelar as decisões pessoais a decisões coletivas, ao império das opiniões gerais transformadas em disposições normativas.


Será possível, perguntam-se os preocupados, construir um mundo assim, sem segredos? Sem intimidade? Sem “caprichos”? A subsistir o humano não, evidentemente. A capacidade de decidir torna o ser humano, humano. Além do mais, todas as tentativas de expor e destruir a intimidade do ser, tornando-o parte de um ente coletivo, fracassaram e continuam condenadas ao fracasso. Mas há mais coisas, nesse ataque ao íntimo, nessa tentativa de profanar o privado da alma humana.


Santa Teresa de Jesus, há muito tempo, entendeu o interior do ser como um castelo de diamante, ou de cristal puro, onde havia sete moradas “e no centro e meio de todas estas tem a mais principal onde se passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma” (Moradas, 1:I:3). A realidade absoluta do ser se alcança, portanto, avançando a consciência na direção desses espaços interiores, caminhando por todas as alas e andares até onde está a fonte da vida, “onde a alma está como uma árvore plantada”(Moradas, 1:II:2).


Mas tal processo, assim entendia Santa Teresa, o ser realiza entrando em si mesmo através da primeira morada, a mais superficial, aonde não chega “quase nada de luz que sai do Palácio onde está o Rei”(1:II:14). Ou seja, a mais temporal. É nesse primeiro círculo da alma que se encontram nossas dúvidas e perplexidades, nossas ansiedades e encantamentos com o espírito e o mundo. É nessa morada que nos debatemos com nossos pecados, mas é através dela que entramos nas moradas interiores. “Todo inferno se juntará”, sustenta calmamente Santa Teresa, para fazer a consciência “tornar a sair para fora” (Moradas 2:1) não seguir essa jornada, não ir ao encontro da Verdade.


Se nos negam o controle dos portais de nossa alma, se submetem nossa intimidade a um público tomado de descrença, capaz de ordená-la a partir de ansiedades exclusivamente materiais, imagine-se como torna-se difícil abrir as portas do nosso interior e avançar no caminho de Deus. Nossa consciência acaba por ser dirigida para fora de seu mundo privado, para o terror da vontade geral. Nosso juízo é dilacerado pelo mundo e por suas falsidades. Por isso, o problema da preservação da intimidade envolve não apenas o tema da nossa liberdade de escolha, mas também o da busca da fonte divina da alma e da possibilidade de viver uma existência santificada.


Como podemos perceber, tal fenômeno é parte integrante da condição humana. A tendência de afastar o homem de sua essência e ate-lo apenas à existência existia na época de Santa Teresa, e em outras. Mas assim como não se pode impedir o ser de exercitar suas escolhas, não se pode impedi-lo de buscar aquilo que é. Mesmo porque o humano busca naturalmente ser o que é. Os estragos decorrentes da tentativa do mundo em imperar sobre a consciência são sempre terríveis. Mas os ganhos em vencer o mundo, infinitos.

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