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A destruição do mundo



Edgard Leite Ferreira Neto


Mani (216-274 d.C.) foi um líder religioso persa. De suas visões emergiu uma das mais influentes religiões do mundo antigo: o maniqueísmo. Muito já se escreveu sobre essa corrente de pensamento, hoje desaparecida. No entanto, em seu tempo causou profunda impressão, espalhando-se do Mediterrâneo à China.


Mani, basicamente, defendeu que este mundo é uma prisão. Afirmou que, em épocas remotas, o universo era dividido em duas dimensões, que não se misturavam: uma de escuridão, habitada por seres das trevas, o mal, e outra de luz, residência de criaturas iluminadas, o bem.


Em algum momento iniciou-se um conflito gigantesco entre os dois universos. No decorrer da guerra, seres iluminados foram ingeridos pelos habitantes do mundo das trevas, a fim de que a escuridão pudesse conter, em si e para sempre, a luz. Havia, no mal, um desejo de ter, na sua intimidade, o bem. Para consolidar esse aprisionamento, foram criados, no mundo da escuridão, o homem e a mulher. A luz passou a ser mantida cativa neste mundo escuro, que é o nosso, através da reprodução. O sémem conteria essa luminosidade impressionante e a manteria inserida em corpos toscos. Os nossos.


O objetivo último da história seria o retorno de toda luz para o mundo luminoso de onde tinha sido roubada, e o fechamento definitivo das fronteiras que permitiram essa mistura. Os mundos da trevas e da luz seriam, portanto, definitivamente separados, restaurando-se o equilíbrio original. Este nosso mundo, cenário de tal pesadelo, a mistura do bem e do mal, desaparecia, portanto. Voltaria a ser o que era: escuridão. Era missão religiosa, portanto, trabalhar para destrui-lo.


O maniqueísmo exteriorizou uma forma de entender a existência que talvez sempre tenha existido mas que nunca mais desapareceu, de todo, das reflexões humanas. Não podemos deixar de considerar que essa tendência de reconhecer e assumir um suposto fracasso do mundo, e trabalhar para sua extinção, é viva e influente. Consciências atônitas com as eventuais impossibilidades da vida não raramente entendem que o problema não está nelas próprias, mas sim no mundo no qual vivem.


Não é de se surpreender que na ordem iluminista contemporânea, desprovida de Deus e de esperança, essa atitude tenha novamente emergido como evento político e se desenvolvido. Principalmente em mentalidades tomadas pela dor que está contida na transitoriedade das coisas e que acabam por crer que tal problema é derivado de alguma disfunção essencial nelas existente.


Própria dos maniqueus, bem como do pensamento iluminista, especialmente dos marxistas e pós-marxistas, é, de fato, a ideia de que o mundo, como está, é errado e deve ser transformado, isto é, destruído. Mas, principalmente, todos sustentam que não deve haver lugar, na consciência humana, para a experiência desse paradoxo que nos leva a gravitar permanentemente entre o bem e o mal. E ainda mais, recusam a ideia de que um dos elementos essenciais da dignidade humana é a capacidade de escolher um ou outro. Acreditam que se é luz ou trevas ou se está além do bem e do mal, mas não se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.


A dor da escolha, a possibilidade do erro, a imprevisibilidade do acerto, principalmente quando isso se dá na ausência da fé, do amor e da esperança, passaram a causar tal horror que tornou-se preferível defender que tudo isso deve ser destroçado. Os maniqueus, e os marxistas, comungam, portanto, dessa ânsia pela destruição do mundo e do ser e pela emergência de um universo sem paradoxos, sem escolhas, sem conflitos. Politicamente, ditaduras. Existencialmente, aniquilação dos conflitos morais e éticos.


O caráter desse projeto insistente é infernal. Pois uma sociedade na qual não há dúvida, nem erros e acertos, só pode existir com a extinção de toda humanidade, cuja natureza é duvidar, errar e acertar. Esses movimentos sustentam, portanto, uma ideia subjacente de grande força: aquela que, partindo da extinção de toda esperança, propõe uma guerra aberta contra a existência do mundo, tal como é.


Embora o meio no qual vivemos seja muito mais poderoso que as pretensiosas teorias humanas sobre a necessidade de destruí-lo, é evidente que esse pensamento causa muito estrago. Não apenas ao mundo e às sociedades que sofrem de forma contínua esse ataque ao óbvio. Mas, acima de tudo, àqueles que nesse projeto acreditam.


Pois, além de enfrentar o universo, maniqueístas antigos e modernos se envolvem numa luta insana contra sua própria realidade interior, naturalmente paradoxal mas essencialmente potente. Isto é, repleta de imperfeições e dualidades mas perturbada pela necessidade, e possibilidade, sempre presente, de escolher e tomar decisões. E, por estas, tornar o mundo melhor do que é.


Ou seja, não destruir o universo, mas, sim, construi-lo.




Mais informações sobre o sistema de Mani podem ser obtidos no livro de Mircea Eliade: História das Crenças e das Ideias Religiosas, vol.2, Tomo II. Zahar,1983.

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