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A guerra não pode e não deve habitar meu coração



Edgard Leite Ferreira Neto


"A guerra não pode e não deve habitar meu coração". Tal afirmação, de natureza ética, pode, segundo alguns, parecer impossível para um polonês que vivesse em sua terra em Agosto de 1939 ou para um cambojano que estivesse em Phnom Penh quando os comunistas a evacuaram em 1975. E, no entanto, é essa afirmação uma necessidade de sobrevivência, em tempos de perseguição e genocídio.


Só a paz pode nos dar a necessária capacidade de, no meio das atrocidades, encontrar o caminho possível da vida. Os seres humanos, irados, transtornados pelo prazer de fazer o próximo sofrer, perdem, usualmente, a noção da natureza dos caminhos e dos objetivos.


Qualquer pessoa que contemplasse, com calma, os milhões de alemães se deslocando, "vitoriosos", pelo leste europeu, em 1939, não deixaria de constatar: "eles morrerão todos". Aquele que observasse, atento, o impossível projeto do Khmer Vermelho de deslocar toda a população urbana do Camboja para o campo, não poderia deixar de avaliar que as cidades seriam restauradas e os responsáveis por aquilo trucidados.


Os povos pacíficos, ou aqueles que são capazes de, com serenidade, recusar o império da ira, sem dúvida têm mais condições de sobrevivência que outros que se entregam à raiva com sofreguidão ou ao prazer que esse sentimento oferece no exercício de uma arrogância desmedida e sem limites.


"A guerra não pode e não deve habitar em meu coração" significa que por mais que possamos ser atraídos para a escuridão do extremismo, não é correto, nem bom, que nos entreguemos à cegueira das paixões. Quando a história foge ao controle da razão e do bom senso e muitos são tomados por fúria, aquele ou aqueles que a ela não se entregam podem fazer escolhas com tranquilidade e ternura e avançar no meio do caos na direção correta, sabendo que o fazem bem.


Isso pode impedir a catástrofe, a morte e a carnificina? Evidentemente que não, pois esses movimentos não são administráveis por nenhuma instância controladora humana, quando se tornam realidades incontroláveis.


Mas a paz é escolha que pode fundamentar decisões tomadas de certeza e verdadeira bondade, capazes de salvar um indivíduo, uma comunidade, um país, ou possíveis de posicionar poucos ou muitos de forma correta diante do caos, seja para recusá-lo seja, eventualmente, para combate-lo, se for esta a única solução para a paz.


Pois mesmo a guerra necessita de profunda paz para ser vencida. Vencem aqueles que não possuem ódio no coração, mas sim a serenidade capaz de transcender as tentações do mundo. E tal serenidade advêm, acima de tudo, da certeza da verdade e da justiça.




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