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Presença de São Tomás de Aquino





Edgard Leite Ferreira Neto


Do ponto de vista do pensamento, vivemos um momento ruim. Depois da Segunda Guerra Mundial consolidaram-se os movimentos de ruptura com tudo aquilo que vem fundamentando a nossa civilização nos últimos três mil anos. A Guerra foi, ela mesma, um movimento aniquilador como nunca antes visto, com inumeráveis consequências. Uma destas foi o aprofundamento da negação da relevância e significado tanto do saber bíblico quanto da tradição filosófica grega e romana.


A carência gigantesca de pertinência e de conteúdo do pensamento contemporâneo tornou-se, hoje, evidente. Esse vazio ampliou-se, ao contaminar as mídias e o sistema educacional e formativo. Descolados de bases intelectuais históricas, muitos pensadores de nosso tempo deslizaram para um mundo de imprecisões teóricas, desprovido de consistência e sentido. Depois de 1945, os elementos fundadores da meditação ocidental foram sendo condenados e deliberadamente esquecidos. Em muitas circunstâncias foi proibida a sua utilização.


A tradição intelectual capaz de expressar o real e o verdadeiro, e que construiu as bases da ciência e da nossa forma de entender a existência, já vinha sendo atacada por aqueles que propunham a guerra contra a realidade das coisas. Muitos tentaram construir sistemas iconoclastas e maniqueístas, sempre efêmeros e precários. Mas, nas últimas décadas, mesmo essas tentativas colapsaram. Não há mais sistemas. Mas pensamentos desenraizados, sem fundamentos, montados em cima da recusa da realidade, ou fundados no nada.


Quando se diz, com prudência, que é necessário tornar presente São Tomás de Aquino (1225-1274), não se o faz apenas por repulsa moral a um mundo em colapso comportamental, mas sim porque é necessário retomar a substância e sentido do pensamento. Não apenas o ocidental, pois também o oriental evoca, de quando em quando, Aristóteles, mas de um pensamento que se volte para a experiência do real e da verdade, numa perspectiva universal.


São Tomás sintetizou as grandes questões intelectuais do ser humano, num processo que depois do chamado Renascimento Carolíngio (séculos VIII e IX) ampliou o resgate e a ressignificação do pensamento grego e romano. Na sua obra encontramos tudo: Aristóteles, os pensadores árabes e Maimônides, Platão, o Neoplatonismo, Pseudo-Dionísio, Santo Agostinho, os primeiros pensadores cristãos. Encontra-se, principalmente, a Bíblia: o Velho e o Novo Testamento. São Tomás construiu um amplo e iluminado sistema a partir da tradição. Fez novas as coisas antigas.


Muitos pensadores do século XX, no meio do caos das guerras e revoluções, insistiram na presença de São Tomás. Esse movimento continua no século XXI. É uma tentativa de viver um pensamento que expresse o real e recupere, para todos, o sentido da verdade.


Não se pretende, é necessário dizer, que o pensamento iluminista, com suas fantasias e nihilismo, com suas arrogâncias diversas e pretensões impossíveis, e, principalmente, com seus ódios à verdade e à liberdade, seja eliminado. O importante é que possamos estar capacitados para uma nova síntese da meditação humana, que considere tudo aquilo que somos. Que faça novo tudo o já visto e desenvolva uma meditação libertadora. Capaz de dar sentido verdadeiro à existência humana.

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