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O sentido da vida



Edgard Leite Ferreira Neto


Eu tive um professor que sempre me dizia que a vida não tem sentido. Nós é que o inventávamos. Essa visão nunca me pareceu suficiente. Exatamente porque podemos bem inventar qualquer sentido. Se a singularidade de nossa consciência está em produzir qualquer sentido, me parecia claro que existiria uma anarquia contínua no mundo. E não há. Há sempre sentidos de essências que se realizam em formas. Há uma essência humana que se realiza no Homem. Não podemos inventar sentidos. Nós somos esse mesmo sentido. Podemos optar em inventar outros sentidos para nós, mas sempre o sentido essencial permanece. Estamos condenados a ser o que somos.


Mas somos todos diferentes entre nós. Cada um, individualmente, possui algo que é único. Então sim, cada um de nós possui também um sentido particular, um destino. Dentro do qual nos movemos, tomando decisões. São Josemaria Escrivá (1902-1975), por exemplo, se preocupava muito, em sua juventude, com esse sentido que sua vida poderia ter. De fato, nem sempre é clara nossa vocação, ou aquela essência própria de nossa alma que deve se realizar em nós, no mundo. Ele meditava numa passagem bíblica central nesse assunto, que é a do encontro de Jesus com o cego. Metáfora do que somos, sempre, nós todos, cegos diante do sentido da existência:


"E disseram-lhe que Jesus Nazareno passava. Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim. E os que iam passando repreendiam-no para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim. Então Jesus, parando, mandou que lho trouxessem; e, chegando ele, perguntou-lhe, dizendo: Que queres que te faça? E ele disse: Senhor, que eu veja” (Lc 18: 37-41).


“Deus, que eu veja!” Esse cego ecoa Moisés, que ao presenciar tantas maravilhas, num monte em chamas, disse simplesmente: "Rogo-te que me mostres a tua glória”(Ex 33:18). “Que me mostre”, “que eu veja!”.


Esses dois pedidos, proferidos diante da inteligência eterna, têm a ver com a ruptura da cegueira diante do mundo ou a da cegueira da consciência diante da glória de Deus. Mas em São Josemaria Escrivá é também a revelação do sentido. Saber o que Ele, Deus, espera de nós. Porque tantas bençãos (a principal, a vida), a um pecador, a uma pessoa tão medíocre e tão incapaz, tão cheio de vícios e abismos?


Por isso, aqui, nesta vida, nos movemos silenciosos, tateando no escuro da existência na direção de Deus. Nós, cegos. Ou ofuscados pela grandeza da Criação, em busca da revelação do sentido. Podemos inventar sentidos, muitos, infinitos. Mas aquele sentido essencial se nos revela quando estamos diante de Deus e pedimos. “Que me mostre”, “que eu veja!”


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