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Uns versos de Mário de Andrade sobre os livros... e os livros



Edgard Leite Ferreira Neto


Hoje caminhei à esmo, na hora do almoço. E me vi, subitamente, num sebo repleto de livros empilhados em todas as mesas e colocados em filas duplas e triplas nas estantes. Havia livros também empilhados pelos corredores. E esse fragmento de poema veio, silencioso, à minha memória:


"Seringueiro, eu não sei nada!

E no entanto estou rodeado

Dum despotismo de livros,

Estes mumbavas que vivem".


Essa perplexidade de Mário de Andrade (1893-1945) ainda está presente naquele que aqui escreve. O que são esses livros, esses mumbavas, esses agregados, que ocupam os espaços do nosso universo doméstico e povoam as nossas consciências? Parecem vivos, porque caminham junto conosco e são portadores de mensagens capazes de gerar eventos no mundo.


Tinha muita poeira. Mas ali encontrei um livro antigo. Peguei-o com curiosidade. Me lembrei, por ele, como as bases de desconstrução das consciências foram instaladas nas universidades. Foi um livro famoso em seu tempo, que criticava os discursos competentes. E fez a fama de sua autora. Folheei-o com algum interesse, um pouco nostálgico, mas impressionado. Ali se falava da igualdade, da crítica à competência, que, supostamente, hierarquiza as pessoas. Da necessidade de desqualificar essa competência. Pousei o livro e olhei na bancada. Havia outros, semelhantes em conteúdo. Vinham da mesma biblioteca.


Os sonhos iluministas de igualar os seres humanos ecoavam em todas as páginas daqueles livros. É preciso destruir a tradição e desqualificar a experiência, diziam. Nenhum daqueles autores, no entanto, se dava conta de que isso tudo não é apenas utopia, mas pura insensatez.


Nenhum deles, incrível isso, era capaz de aceitar as dores humanas como contingências da existência. Frutos de nossos erros e de nossa condição. As divisões sociais e as desigualdades individuais como realidades irrenunciáveis e próprias da natureza do ser. E que se tornar competente, ter experiência e mérito é bom, nos fortalece e realiza. Todas as tentativas feitas no sentido da igualdade, inclusive a deles, apenas construíram novas desigualdades. A desigualdade se impõe e emerge em toda igualdade teorizada.


Olhei assim aquele universo de volumes. Pus-me numa posição perto da porta e percebi que todos aqueles livros à venda portavam as ideias humanas. De todo tipo, de toda forma. Com todas as inclinações que a consciência pode propor. Houve quem, ao longo da história, quisesse destruir uma ou outra corrente de ideias, que fluía através de inumeráveis livros. Mas nunca foi possível. Os livros vão seguindo sua jornada, se reproduzindo infinitamente, trazendo concepções e mais concepções que movem as pessoas.


Me afastei para a rua e vi que ao lado dessa loja de livros usados havia outra livraria, e, mais adiante, outra. Isso nunca termina nem nunca terminará, pensei, espantado. E, no meio daqueles livros todos, vi uma Bíblia. Pequena e preta. Daquelas gratuitas, que ficavam, outrora, nos hotéis. Não havia muitas, visíveis. Não sei bem por que, já que são incontáveis. Mas a crítica à competência e à experiência produz muita literatura, nos últimos séculos, e ocupa todas as bancadas. Mas ocupam todas as consciências? Segui o caminho pela rua, alheio ao vozerio elevado das livrarias.


É fácil não crer em Deus, quando há tanta ciência no mundo, e a medicina, a bebida e as drogas aliviam as dores e abreviam os sofrimentos. Mas a realidade do mundo está sempre lá, por trás de tudo, e a pulsação da eternidade também. Há livros que portam ideias dos homens e outros as de Deus.


O tempo vai mudando. As nuvens vem e vão. Hoje estava tudo nublado, com um vento frio que vinha de não sei onde. Andava e os sebos se sucediam, uns após os outros, com seus mumbavas despóticos. Mas, observei intimamente, nem todos tem o poder de submeter nossas consciências. Alguns possuem a qualidade de nos libertar. E por isso faz toda diferença quais e quando os lemos. E como.


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