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A defesa da competência



Edgard Leite Ferreira Neto


Muitos sustentam que o respeito pelo mérito tem por objetivo dar pertinência à desigualdade. De certa forma é verdade. Quando se afirma o mérito, ou a competência, se estabelece uma diferenciação entre aquele que se sustenta em algo e aquele outro que não.


Pode-se, e isso se faz muitas vezes na política, indicar alguém que não conseguiu se estabelecer numa competência qualquer e explicar-lhe que isso se deu por conta de sua inferioridade, de qualquer natureza.


Tal raciocínio é moralmente equivocado, pois apenas estimula a inveja e o ressentimento. E é mentiroso, porque o fato de alguém não estar numa posição competente em um dado espaço não significa que seja incompetente em outras campos de atuação possíveis. E como estes são, de fato, infinitos, há sempre a possibilidade da competência em outras áreas que não esta na qual não se é.


Como vivemos numa era onde a política manipula os ressentimentos e as invejas, para inimizar as pessoas umas com as outras, é comum que tais equívocos e mentiras criem não apenas uma multidão que se sente incapaz mas também movimentos de inveja, de cunho político, que separam alguns de outros.


Além de equivocado e mentiroso, esse raciocínio oculta o fato de que as pessoas tem diferentes competências e que elas podem ou devem descobrir e buscar o caminho dessas capacidades. Pois o triunfo do mérito é a vitória de quem encontrou a sua particularidade, no universo humano como um todo, e pode realizá-la como competência.


É fato que uma dada competência torna-se atestada por resultados concretos de ações (que podem não ser reconhecidos, mas que se evidenciam na prática). Mas isso não é, normalmente, expressão de uma fantasia pessoal ou de um projeto deliberado qualquer, mas sim, usualmente, de uma ansiedade íntima que se impõe à pessoa que atua no mundo sem que esta possa a ela resistir. Trata-se de um movimento interior, de difícil controle, que busca a realização.


É claro que não se realiza uma particularidade íntima, um dom próprio, sem grande esforço, e há, em cada vitória, em cada realização de competência, uma longa trajetória de luta. Não, exatamente, contra o mundo (embora o próximo, muitas vezes, possa ser um inimigo letal) mas, acima de tudo, contra as limitações que cada um acaba por impor ao desenvolvimento das qualidades de sua própria alma.


Realizar o que se é é bonito. É realizar aquela intimidade especial, que nos diferencia de outros. Mas isso implica em superioridade? Sim, mas apenas naquele aspecto específico da competência, mas não em todas as dimensões da existência que são a maior parte daquilo que somos.


O que pode geralmente destruir a competência é exatamente a ideia, que com muita facilidade se tem (e combater tal ideia faz parte da luta interna pela realização), de que ser competente em algo torna um alguém superior a outros em tudo. Isto é errado porque é a complementação de diversas competências que garante o sucesso das relações, quaisquer que sejam seus objetivos. A esse risco se chama vaidade. E esta é, sim, destruidora. Da competência.


A crítica ao mérito e à competência é, na prática, um enfrentamento à individualidade humana e ao seu brilho. Contém uma tentativa de redução do indivíduo a uma condição com pouca ou nenhuma capacidade de criar e produzir algo que possa iluminar o outro.


Isso nunca poderá dar certo a não ser pelo ataque direto ao competente. Isto é em parte previsível, e até certo ponto normal, como vimos, por conta do ressentimento e da inveja. Mas quando tal reação torna-se movimento político, pode implicar em massacre das competências. E em inevitável desagregação da capacidade criativa ou gestora do meio. Isso não pode funcionar, evidentemente, porque é prática contrária à natureza das coisas: tudo que existe aspira à realização de sua essência.


A defesa da competência, do mérito, não é defesa da desigualdade, portanto, mas defesa da pluralidade de potenciais que é própria dos seres humanos. É defesa da sua realização plena. E é no ser diferente que reside a igualdade humana. É claro que para que tal processo se desenvolva de forma equilibrada é importante uma correta gestão dos desejos, uma preocupação constante com a prática das virtudes, a clareza sobre o que cada um pode e deve dar ao mundo e o reconhecimento de que o outro é sempre maior que nós em algo, ou em quase tudo.


O reconhecimento desses elementos permite o estabelecimento da certeza de que todos os homens podem ser seres competentes, naquilo que unicamente são.

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