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A doçura contida no amargor da vida



Edgard Leite Ferreira Neto


No final do romance Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas (1802-1870), D’Artagnan, nomeado tenente dos Mosqueteiros, se despede, emocionado, de seus leais amigos, Athos, Porthos e Aramis. Cada um deles, por diferentes razões, segue seu próprio caminho:


“-Não terei mais amigos - disse o jovem - Mais nada, só recordações amargas…

E deixou cair a cabeça nas mãos, enquanto duas lágrimas lhe corriam pela cara abaixo.

-Sois jovem - respondeu Athos -, e as vossas recordações amargas têm tempo de se transformar em doces recordações.”


Essa observação diz muito sobre a vida. As experiências dolorosas são, acima de tudo, experiencias pedagógicas. Há doçura na dor: a que vem do espírito, a que nos ensina a viver.


A nossa tradição sempre ensinou o caráter redentor do sofrimento. Embora isso esteja delineado no Velho Testamento, foi o fundador do nosso mundo que mostrou que o sofrimento conduz à redenção.


Outro dia faleceu, para muito sentimento de todos, um pastor. Se chamava Luiz Carlos da Silva. Era um homem de Deus. Rezava por todos. Quando faleceu, amigos que foram visitar sua família se impressionaram com a humildade em que vivia. Pouco tinha, mas parecia que tinha muito, certamente porque o sofrimento era o que o unia a Jesus. E quem tem a Deus tem tudo.


Athos estava certo: com o tempo percebemos que todas as dores nos abrem caminhos, nos inspiram a crescer, nos mostram erros, e se as vivemos com profundidade demonstram como somos capazes de dedicação.


Mas se tivesse eu junto a D’Artagnan, precisaria melhor Athos: as recordações amargas não se transformarão em recordações doces. Na verdade as experiências amargas são experiências doces. Elas nos colocam diante da realidade do mundo, do que somos, e nos apontam, através do sofrimento, um outro mundo onde não existem dores.


Assim este escrito, aliás, no livro de Ezequiel:


"Mas tu, ó filho do homem, ouve o que eu te falo, não sejas rebelde como a casa rebelde; abre a tua boca, e come o que eu te dou.

Então vi, e eis que uma mão se estendia para mim, e eis que nela havia um rolo de livro.

E estendeu-o diante de mim, e ele estava escrito por dentro e por fora; e nele estavam escritas lamentações, e suspiros e gemidos.

Depois me disse: Filho do homem, come o que achares; come este rolo, e vai, fala à casa de Israel.

Então abri a minha boca, e me deu a comer o rolo.

E disse-me: Filho do homem, dá de comer ao teu ventre, e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou. Então o comi, e era na minha boca doce como o mel". (Ez 2:8-10, 3:1-3)


A ideia de que, da vida, só devemos esperar prazeres e satisfações, tão comum atualmente, além de não ser real, é hostil a tudo aquilo que podemos ter do ponto de vista do espírito: principalmente a santidade, ou a transcendência do mundo - que só alcançamos vivendo o próprio mundo e o seu sofrimento.

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