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A santidade no mundo


Edgard Leite Ferreira Neto


Há um movimento humano, essencial, que é o de denominar e dominar coisas existentes no mundo (Gn 1:26-28, Gn 2:19-20). O pensamento, o dar nome, se realiza em ação, em domínio. É mandamento de Deus. Algo que está na nossa alma e a impulsiona adiante, neste mundo. E a ação sobre o mundo se dá pelo trabalho, pelo cotidiano movimento em realizar aquilo que entendemos como realidades pensadas a ser administradas concretamente, dominadas.


São Josemaria Escrivá entendeu que esse processo era “um meio necessário que Deus nos confia aqui na terra, dilatando nossos dias e fazendo-nos participar de seu poder criador”. A grandeza desse movimento, que acompanha nosso surgimento como seres, nos permite a intimidade com essa inteligência que estruturou o nosso universo interior.

É ato, portanto, imbuído de sacralidade, que faz transbordar, para o mundo, através de nós, o espírito que dá nome e ordena todo o cosmo. O mandamento “sejais santos, porque sou santo” (Lv 11:45), significa viver, neste processo, essa grandeza mística, essa experiência contemplativa que é colaborar para a ordenação do mundo.


"Como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver”(1 Ped 1:15). Não se trata de imitar Deus, colocando-se no lugar dele, mas sim de imitá-lo no limite de nossas experiências temporais, e no drama de nossas escolhas e imperfeições, nesse processo pelo qual as coisas são realizadas no sentido do supremo bem.


Contemplamos, como um monge contempla o silêncio, a maneira como o saber e a prática do conhecimento estabelecem, de forma natural, sentidos e caminhos no mundo, e a partir desses retiramos nossos alimentos, tanto os materiais quanto os espirituais. Todo ato de agir, de trabalhar, é imbuído desse eco da criação. Que tomamos para nós, como um dom fundamental a ser apreciado e exercido.


Muitos podem acreditar que isso independe de Deus, ou do invisível, e transformam essa ação em opressão e escravidão, aos outros e ao mundo, ou em espaço de arrogância e destruição. Mas a busca da sintonia entre o nosso cotidiano e a eternidade, entre o produzir neste mundo finito e a contemplação do infinito, permite que a nossa existência seja santificada e possamos ser santos, como Ele é.


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