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Discernimento, informação e pertinência moral



Edgard Leite Ferreira Neto


É importante que caminhemos na direção da essência, para além das aparências. E embora esse ato seja pessoal, absolutamente determinado pela nossa capacidade de optar e escolher a direção correta, é evidente que a construção de relações virtuosas se faz necessária para que o caminho se fixe, na consciência, como rumo consistente.


E isso diz respeito tanto às nossas relações mais próximas, de amizade, quanto às mais distantes e complexas, que envolvem a política local e a geral. Há que se buscar essa coerência em todas elas.


Mas na realização de tal movimento virtuoso é importante que tenhamos, em nossa consciência, o senso da liberdade de escolha. Todos possuem uma inclinação para uma moral objetiva consequente, bem como a possibilidade de discernir. Mas devem-se buscar os elementos necessários para que o discernimento se desenvolva com razão e pertinência.


Quando se caminha pelo mundo buscando realizar aquilo que se é, torna-se relevante conhecer diferentes razões e argumentos e saber jugá-los do ponto de vista moral. Por isso, quando se fala em liberdade, não se fala apenas em poder fazer isso ou aquilo, mas sim na maneira como a vontade se exterioriza. Se só se trabalha com uma razão a que nega a verdade e que pretende conduzir o ser numa única direção, a do mundo, qual o grau de exercício da liberdade, como dimensionar a correta exteriorização dos desejos?


Mesmo numa situação de liberdade, tal processo está longe de ser coisa tranquila, no entanto. O movimento de discernir é repleto de impertinências, incoerências e erros. Mas quando se tem em vista a correção moral a ser alcançada ele flui na direção do correção. Pois a esperança humana reside em alcançar a pertinência, a coerência e o acerto. A questão reside em ter a possibilidade intelectual de se dirigir para o bem.


O processo pelo qual, nas últimas décadas, as aulas, os livros, as notícias, as novelas, os filmes, começaram a falar uma mesma língua e a replicar uns aos outros uma mesma narrativa, crítica, normalmente, de toda moralidade, coloca entraves ao alcance da pertinência moral. Esse movimento busca impor um paradigma que exclui a ponderação de outros argumentos e tem a ver com a proposição de que a igualdade humana exige uma igualdade no pensar.


Os fundamentos dessas narrativas são soluções para qualquer discernimento, mas são verticais e autocráticos, vindo de pessoas que acreditam serem esses os únicos legítimos. Fica evidente que tal realidade solapa, aos poucos, a liberdade de discernimento e desestrutura moralmente a sociedade. Isso porque a boa moral é fruto de decisões que tomamos não diante de uma, mas de várias opções. Sem substrato para optar diferente, apenas nos desagregamos ou nos tornamos escravos. Mas não conseguimos entender como podemos discernir corretamente.


A busca da realização a partir do que se é e numa perspectiva virtuosa, a busca da essência, exige que a produção de conhecimento seja livre, que seus ecos na mídia e no sistema educacional sejam diversos, para que possam, todos, conviver com os diferentes argumentos e caminhar pelo caminho da verdade de forma consciente. As editoras devem se abrir a argumentos contraditórios, a mídia fundar-se no equilíbrio e a internet ficar livre das práticas de controle político de conteúdos.


Se é proibida a narrativa que sustenta a existência da verdade, não se conhecerá esta. Na prática, isso significa que nenhum elemento intelectual poderá dar estrutura às ações morais e desaparecemos no nosso próprio caos. Porque só a verdade legitima. Por isso o que se faz, e sempre foi feito, é insistir na meditação sobre a vontade e os mecanismos e conteúdos necessários para exteriorizá-la corretamente. Para isso é preciso liberdade na produção de conhecimento e ampliação das alternativas de entendimento do que é certo e bom. Para que possamos, sim, sermos certos e bons.


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