Não há distância



Edgard Leite Ferreira Neto


Quinhentos anos de sistema copernicano (isto é, uma pura descrição materialista do cosmo), podem ser responsabilizados pela ampliação da descrença corrente. Ou, melhor dizendo, pela exclusiva crença num mundo desprovido de espiritualidade, e definido por uma esmagadora realidade de números, que se replicam infinitamente. Mas esse universo que se estende por distâncias incríveis, quando numericamente expostas, não é, em si, novo. Na época em que essas questões não eram particularmente importantes, também se percebia que entre a terra e o céu das estrelas fixas estendia-se uma distância imensa, que gerava a mesma angústia que os manuais de física hoje geram quando expõem, comparativamente, as proporções existentes entre a terra e o sol e outras existentes no universo observável. A descrença não é um fenômeno contemporâneo mais do que o era no mundo antigo. Não foi Copérnico, ao começar a medir com precisão as distâncias, que empurrou Deus para um Além infinito. Para muitos, em tempos anteriores ao de Copérnico, Deus já era tão distante que não fazia sentido algum. O problema nunca esteve no tamanho do cosmo, nem em sua matemática, mas sim na imensa distância entre a consciência e a alma. Ou no espaço que existe entre o mundo visível e repleto de encantamentos e a essência das coisas, o mistério que as sustenta, tal como este aparece na nossa percepção. Tal essência, ao contrário deste mundo sensível, é repleta de realidades eternas e infinitas. Mas que podem, no entanto, ser alcançadas pela consciência, não por uma sonda espacial, que percorre o vazio desabitado do universo por décadas, a um custo imenso. Mas pelo simples movimento interno da consciência, de se dirigir para o mistério do ser, no seu próprio coração. Tal distância, também imensa, não precisa, no entanto, de grandes projetos de engenharia, mas apenas de profunda humildade diante dessa extensão e de um sentimento de absoluta liberdade para cruzá-lo. Isso torna Deus próximo, e se percebe que ele habita em nosso coração. Não há distância alguma a ser percorrida, apenas um gesto interior a ser tomado. Sempre foi assim que as coisas funcionaram, e continua a ser.

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