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Podemos conhecer o mundo sem liberdade?



Edgard Leite Ferreira Neto


Podemos conhecer o mundo sem liberdade? Alguns podem supor que sim. Basta se submeter a um modelo qualquer de entendimento das coisas que nos explique como são e por ele seguir, abdicando do movimento de dissentir. É claro que, para um observador impertinente, é evidente que esse ato de submissão implica, por si só, numa liberdade, numa decisão. Mesmo que seja um ato de liberdade que leve o pensamento à escravidão.


Considerando que as coisas entendidas do mundo não são estáticas, no entanto, e que não conhecemos tudo, mas apenas uma parte delas, os sistemas de pensamento que existem são eles mesmos mutáveis e imperfeitos. A submissão absoluta a um dado modelo explicativo nos tornaria estáticos, o que é contrário à própria natureza mutável que o nosso corpo e nossa consciência compartilham com o mundo.


Assim, não há como, portanto, conhecer o mundo sem o exercício da liberdade. Dissentir é mais que natural, mas necessário e inevitável.


A questão se tal decisão é moral, ou correta, no entanto, é um tema relevante e deve ser considerado, pois o exercício da liberdade tanto pode levar aos pecados quanto às virtudes. E só há liberdade verdadeira no último caso. Mas isso não implica na existência de qualquer obstáculo à liberdade da consciência. Sendo evidente que toda e qualquer decisão tem suas consequências e devem ser assumidas. E tais consequências podem ser pedagógicas.


No desenvolvimento da ciência, é bastante comum que sistemas teóricos consolidados tendam a se manter inibindo dissensões. Por isso, nas universidades, é importante que se garanta o exercício da liberdade acadêmica, estabelecendo regras gerais para o seu correto exercício metodológico, bem como um código de ética comportamental. Basicamente para que o pensamento possa ser sempre corretamente transformado, por conta da realidade que se transforma.


A história do pensamento, dentro das universidades, está cheia de momentos de confrontos teóricos, onde se tenta desqualificar ou proibir a liberdade de ir numa ou noutra direção, de fazer esta ou aquela experiência, de pensar desta ou daquela forma.


No entanto, tal movimento é absolutamente inevitável, e deve, de preferência, ser garantido pela legislação. Mas ele se desenvolve, muitas vezes, apesar das leis ou contra elas. Não é apenas o conhecimento que se realiza pela liberdade, mas o próprio ser humano, na sua contínua busca da verdade. E não há força que possa fazer desaparecer esse movimento sem tentar eliminar, ao mesmo tempo, o próprio ser humano.



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