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O compromisso maior com a verdade


Edgard Leite Ferreira Neto


A discordância é natural. Fundamental, mesmo, para estabelecer os parâmetros corretos das decisões. As constantes idas e vindas entre “sim", “não”, "talvez", constroem, aos poucos, os elementos que possibilitam a correção das escolhas. É evidente que tal processo dá-se dentro de quadros conceituais e teóricos os quais vão, ao longo dos diálogos, revelando suas substâncias, suas fragilidades, suas potências. Deveria ser igualmente natural, portanto, reconhecer o valor da liberdade argumentativa, porque sem esta é difícil haver progresso no entendimento da realidade.


No entanto, nem sempre é assim. Em grande medida porque o controle das narrativas representa poder argumentativo, domínio sobre a própria imagem, a do argumentador, e sobre outras pessoas e instituições. E a exposição das fragilidades de um argumento compromete aquele que o defende. O diálogo argumentativo, portanto, não se desenvolve de forma livre quando esbarra na vaidade ou na arrogância, no poder, do expositor. Embora quem realmente pensa e busca a verdade tem todo o interesse em encontrar suas próprias fragilidades. Pois no reconhecimento do frágil, e em sua correção, é que reside a força de um argumento em construção. E todo argumento está em construção


Quanto mais, portanto, avançamos no império dos discursos vaidosos, e essa é uma tendência fortíssima do mundo moderno, (veja-se, por exemplo, essa obra-prima da vaidade que é a Fenomenologia do Espírito de Hegel), mais difícil é tentar alcançar uma verdade que esteja além de toda possível narrativa. Presa, assim, em seus próprios modelos, que respondem, acima de tudo, a objetivos pessoais de controle do pensamento alheio, ou de endeusamento de seu próprio pensamento, a discussão acadêmica acaba tornando-se hostil à realidade dos fatos, pois esta, pela própria natureza das coisas, sempre coloca em cheque o pensamento que os humanos podem desenvolver sobre a realidade do mundo.


Não é a discussão acadêmica que coloca a vaidade do intelectual em cheque, mas a própria realidade, permanentemente, portanto. Basta observar a história da Física nos últimos quinhentos anos, para perceber como as teorias se sucedem de forma interminável desafiando o poder de uma dada teoria, consolidada por toda matemática possível e estabilizadora de carreiras universitárias impressionantes.


Há sempre algo novo a ser descoberto no mundo, o que não é propriamente uma novidade: a nossa capacidade de ver as coisas sempre será precária, devido às nossas naturais limitações. Nunca poderemos ver tudo.Todo discurso humano é portanto questionável, e sempre o será. Colocar pensadores dentro de uma "espiral de silêncio”, quando são dissidentes ou críticos de um determinado modelo tido como dominante, é, assim, uma solução precária.


É claro que isso ocorre porque o pensamento acadêmico é, cada vez mais, nessa usual fogueira das vaidades, treinado para concordar, apenas, nunca para dialogar. Evita, de forma obsessiva, ser colocado à prova. E isso significa que poucos estão preparados para tentar entender o que o outro, o dissidente, diz, acima de tudo porque este geralmente parte de pressupostos diferentes que precisariam ser estudados para ser contraditados. Por isso a normal tendência de desqualificar pessoalmente o opositor, difamá-lo, ou de impor juízos de ordem política sobre o que diz, mas nunca reconhecer, nos seus argumentos, alguma verdade. Ora, tudo que é dito revela alguma verdade.


Também é evidente que tal operação de silenciamento funciona perfeitamente, porque preserva a narrativa dominante de qualquer mácula e coloca o dissidente na difícil condição de não ter com quem dialogar, o que o empobrece muito no seu desenvolvimento. No entanto, a espiral de silêncio, paradoxalmente, dá ao dissidente, se este é convicto da realidade de sua dissidência, condições de crescer dentro de si. E quanto maior o silêncio, maior o crescimento. Acima de tudo porque o dissidente deve ter, para sobreviver à essa forma de "morte em vida", um compromisso absoluto e íntimo com a verdade.


Deve-se dizer, no entanto, que tudo isso faz parte do desenvolvimento da jornada intelectual humana. Não haveria pensamento sem diálogo, sem vaidades, sem espirais de silêncio. E sempre será assim. Porque os seres humanos são vaidosos e pecadores. Mas o mais importante, nos parece, é que se deve crer na liberdade e no avanço do diálogo como forma de crescimento, e nunca se deve perder de vista a necessidade urgente da verdade, como o principal motor da luta pela liberdade argumentativa. Porque a verdade acaba, de forma insistente, se impondo sobre toda tentativa humana de obscurece-la. Ou, melhor, sobre os intentos de recriá-la, como realidade controlável, em narrativas vaidosas.

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