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Um poema de Walt Whitman sobre a felicidade


Edgard Leite Ferreira Neto


O que importa, realmente, na vida? Walt Whitman (1819-1892) escreveu um poema célebre, sobre o assunto:


"Quando ouvi ao cair da tarde como meu nome tinha sido recebido com aclamação no Capitólio, ainda assim não foi uma noite feliz para mim

E quando me diverti, ou quando meus planos foram realizados, ainda assim não fiquei feliz,

Mas no dia que me ergui de madrugada reposto em boa saúde, reanimado, cantando, inalando o ar maduro de outono,

Quando vi a lua cheia no oeste surgir pálida e desaparecer na luz da manhã,

Quando andei sozinho pela praia, e, nu, banhei-me, rindo com a água fria, e vi o sol nascer,

E quando me dei conta de que minha querida amiga, minha amante, estava a caminho, aí fiquei feliz

Então cada alento teve um gosto mais doce, e todo aquele dia minha comida me alimentou mais, e o belo dia passou bem,

E o próximo veio com igual entusiasmo, e com o próximo, à noite, veio minha amiga,

E naquela noite enquanto tudo estava tranquilo ouvi a maré rolar lenta e continuamente praia acima,

Ouvi o roçar silencioso do líquido e da areia dirigido a mim sussurrando-me parabéns,

Pois quem mais amo dormia ao meu lado sob a mesma coberta na noite fria,

No silêncio no luar outonal seu rosto estava inclinado em minha direção,

E seu braço pousava levemente em meu peito - e naquela noite eu estava feliz."


O que nos torna realmente felizes? Whitman, nesse lindo poema que Borges considerou “uma invenção”, porque pura fantasia, sugeriu que a felicidade é uma experiência individual, mas que se realiza acima de tudo com o amor, físico, entre indivíduos.


O trabalho realizado, por mais meritório que seja, a ponto de ser “aplaudido no capitólio”, não tem muito valor. Provavelmente porque a vida desse mundo é puro vazio de sentido em si. Nenhum elo nela, quando vai apenas de si para si própria, articula um sentido completo. Pois tudo, nela, termina. Acaba. As glórias começam do nada e terminam em nada.


Então ser aplaudido no capitólio é pura ilusão. Mas estar com alguém, que se ama, numa praia ao anoitecer, parece experiência mais verdadeira, porque sincera e profunda, já que o amor, segundo o Cântico dos Cánticos “é tão forte quanto a morte. Suas brasas são fogo ardente, são labaredas de Deus” (Cant 8:6). Isso, em princípio é mais real que a adulação banal da vaidade, ainda que seja por multidões.


Mas essa dicotomia, embora justificável e virtuosa, está muito relacionada à forma como se vê o trabalho e o amor. Tanto um momento (o trabalho e seu reconhecimento), quanto o outro (o encontro e o amor), podem se equivaler, se os iniciamos na eternidade e nela os terminamos


O trabalhar e ser reconhecido, se nos transcende, faz sentido porque não tem fim, é santo. Da mesma forma se amamos, e se o amor vem da eternidade e nos leva através do mundo para o infinito, sem dúvida que também nos torna felizes..


Não importa, está certo Whitman, se nosso nome é imortalizado em bronze, pois também o bronze se desagrega, mas se o nosso amor se estrutura sobre a cinza e poeira de nossos corpos, de que vale?


O reconhecimento ao trabalho realizado, da forma que for, por quem for, e o carinho ao anoitecer podem, apesar da impressão de Whitman, se equivaler: se por eles passa a corrente infinita do amor que tudo cria e tudo sepulta. E assim ambos podem valer algo maior, para as nossas almas. Só esse vínculo torna-nos sentido de algo em tudo que fazemos, em público e na intimidade. O resto é vento, e correr atrás do vento, como diz o Eclesiastes (Ec 1:14). E neste efêmero pode caber tanto a aclamação no capitólio quando o abraço ao anoitecer.


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