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Um poema de William Yeats sobre o amor


Edgard Leite Ferreira Neto


Tomei conhecimento da obra de William Butler Yeats (1865-1939) há muitos anos, através de um volume de seus Poemas Escolhidos. Lembro-me da singular impressão que me causou uma poesia, ali transcrita, de 1892, denominada When You Are Old. Provavelmente era dedicada ao seu amor não correspondido, Maud Gonne (1866-1953). Aqui traduzo as suas duas primeiras quadras, livremente:


"Quando você for idosa e grisalha e sonolenta,

Cochilando diante do fogo, tome este livro

E bem lentamente o leia e lembre do olhar suave

que tinha e das profundas sombras que seus olhos tiveram”.


E continuava:


“Quantos amaram seus momentos graciosos e felizes

E amaram sua beleza com amor, falso ou verdadeiro?

Mas um homem amou a alma peregrina em você,

E amou as sombras de seu rosto que mudava”.


Sabemos que Yeats possuía inclinações místicas de perfil oriental, e que aqui, provavelmente, fala de algumas de suas crenças, talvez sobre a transmigração das almas.


Alguns dizem que esse poema é sobre a passagem do tempo. E é, certamente. Mas sempre me pareceu que, nesses versos, Yeats defende a profundidade da experiência do amor. Que começa no visível mas se estende para além dele. Acompanha, imutável, a mudança dos instantes.


Seria o amor a alguém um meio para perceber a existência de algo maior que esse alguém? Não me parece absurdo supor que sim. Porque o movimento que nos leva na direção de uma pessoa pode ser pulsional, e tem a ver com aspectos da aparência que notamos no próximo. Cabelo, corpo, sorriso, um traço qualquer de personalidade. Aspectos de instante, sombras de rosto que mudam, com a sucessão de circunstâncias.


No entanto, em algum momento, esse encantamento se esgota, quando já foi totalmente explorado. Ou explorado até a necessidade de ser realizado. Ou quando ele naturalmente muda, se transforma, pois é da natureza desse mundo a transformação. E ficam os sentimentos então pairando numa espécie de limbo, diante do qual existe um horizonte de desconcertos.


O sentido de qualquer relacionamento é configurado antes dele ocorrer, pois é a necessidade de realizar o amor que o impulsiona. Tudo que ocorre, a partir daí, são diversões do mundo, falsas ou verdadeiras. Mas, assim me pareceu, Yeats sustentou que a natureza do amor é superior, em qualidade, ao que se vê, e apenas se realiza plenamente quando corresponde à forca que o impulsiona, o Infinito.


Todo relacionamento de amor, assim entendo no poeta irlandês, era a forma presente que continha uma essência maior, eterna. Eu, particularmente, acrescentaria que é também uma imitação da relação de Deus com o Homem. O poeta aceita e aprecia a passagem do tempo, porque sabe que há algo maior que, pelo amor, é alcançado, quando se ama, apesar do tempo: a eternidade.



Ver aqui outros textos de Edgard Leite no blog do Instituto Realitas



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