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Uns versos de Fernando Pessoa sobre o espanto



Edgard Leite Ferreira Neto


O espanto com o mundo, o assombro com a sua realidade, é um sentimento fundador, e com muita precisão o definiu Fernando Pessoa:


"Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo..."


Já Platão, no Teeteto, recuperou a afirmação de Sócrates de que a perplexidade, o espanto, é a origem da filosofia (Teeteto 155D). E, de fato, sem esse maravilhamento nossa consciência torna-se árida, opaca. Inibir a perplexidade diante do mundo é hoje uma tendência bastante acentuada, principalmente entre os que afirmam que não há mais enigmas, que tudo pode ser explicado e controlado. Mas esse sentimento de surpresa é virtuoso e não pode deixar de ser acalentado como caminho de conhecimento e de vida.


Há muitos momentos no surgimento de um ser, por exemplo, que causam espanto, pela maravilha que são. Embora a ciência de nosso tempo os reduzam a algo banal. Banalidade que aceitamos, com a maior distração possível. Pois como poderíamos tornar o sexo algo menor, como o fazemos hoje, se considerássemos, com atenção, o seu objetivo maior, ou essencial, que é o de mover as criaturas para que coloquem neste mundo uma outra criatura?


Se atentamos para o enigmático movimento pelo qual os gametas masculino e feminino se associam, após se deslocarem um em direção ao outro, movidos por uma força poderosa e desconhecida, sem dúvida seremos tomados de espanto. Principalmente porque logo em seguida, sabemos hoje bem, uma energia misteriosa associa linhagens de cromossomos para gerar algo que contém em si o destino de um ser.


Ali vão se desenhando a forma física, a cor da pele, a disposição de ossos, traços de personalidade e de inúmeras particularidades genéticas, cujo real significado é desconhecido. Para nós. Mas que estão ali delineadas em intermináveis variáveis, que não são apenas químicas, mas espirituais ou profundamente misteriosas. Pois não é só o gene que conta na formação de um ser, mas um conjunto impreciso de circunstâncias extraordinárias que se colocam desde antes dos gametas se unirem..


E, é claro, presenciamos o processo pelo qual aquela criatura vai, aos poucos, crescendo dentro do corpo da mãe. Assim se exprimiu o salmista, antes de toda ciência contemporânea:


"Pois tu formaste os meus rins; entreteceste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo tão admirável e maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e esmeradamente tecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nenhum deles” (Sl 139: 13-16).


Uma gravidez, portanto, não é algo banal. Uma questão de saúde pública. Mas um fenómeno extraordinário e único. Por isso Moisés, quando despertou para essa realidade das coisas, deu a seu filho o nome Gerson, porque "fui peregrino em terra estranha”(Ex 18:3). Estar no mundo é estar em terra estranha, é ser tomado, continuamente, pelo extraordinário, pela perplexidade, pelo espanto. Tudo nele é estranho, porque mistério.


É importante manter-se diante do mundo com o sentimento que reconhece sua eterna novidade. Não para negar que muitas coisas são de fato bem conhecidas, mas para reconhecer que por mais conhecidas que as coisas sejam elas repousam em enigmas tão profundos e possuem movimentos tão surpreendentes que não há como jamais deixar de se impressionar com o fato de ocorrerem, mesmo sendo previsíveis. Porque a própria previsibilidade é espantosa. E a impossibilidade de assegurar que sempre serão previsíveis, também o é.


Nessa perplexidade, que Maimonides achava um sentimento central, naquele que se aproxima do mundo, ou de Deus, repousa nossa condição. E é a partir desta que caminhamos para a mística solução da angústia decorrente da imprecisão do extraordinário. Nascidos para a eterna novidade do mundo vivemos a presença onipresente da eternidade..


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